Separação

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A cama nunca tinha sido tão fria quanto naquela noite. O cobertor deliciosamente felpudo estava em território inimigo, impossível cogitar dividir em tempos como os atuais. Não falavam de amenidades há pelo menos três meses. Na última semana, desde que o advogado anunciara a saída dos papeis do divórcio, nem olhar para o outro tinham olhado. Até o extremo de trocar de turno fora opção, assim não havia erro em se evitarem enquanto não dividissem os bens e cada um pudesse caçar o seu canto.

Houve ao menos um segundo de concordância entre ambos. Se a justiça decidiria a separação de bens maiores, a casa, os carros, a guarda das filhas, do cachorro, do gato, do peixe beta, ao menos os objetos caseiros deveriam ser decididos intimamente, no cara a cara e jokenpô. A data do fatídico encontro foi marcada assim que a reta final da briga surgiu. Seria em um sábado para que as meninas estivessem com os avós e não se assustassem com o que poderia acontecer.

Era a noite da véspera, uma da manhã, quatorze graus lá fora, menos dez lá dentro. A preguiça de levantar e pegar outra coberta era grande, impossível dormir sentindo tanto frio. A realidade era que não queria dormir. Queria olhar para ela e tentar entender o que fizeram para chegar ali. Ela creditava toda culpa a ele, as traições e ausências. Ele não ousava crer ser tão expert assim em foder a própria vida. Dividia a merda por dois. Ela havia se tornado fria e distante, pouco preocupada em sentir qualquer coisa meramente humana.

Parecia que o tempo tragara os bons momentos para dentro de um buraco incosificável, inexplicável e assustador. Quem os olha hoje não supõe que se conheceram em um romântico dia de chuva, com direito a convite para um café e troca de telefones. Ela ligou primeiro, impaciente como é tinha que decidir as coisas logo. Ele sempre fizera o tipo ‘deixa a vida me levar’ e ia ligar, ia mesmo, mas só quando a mãe fosse lavar o casaco e avisasse que tinha achado o papel no bolso. Ai ligaria correndo.

Logo na primeira semana se viram todos os dias, tinham tanto a conversar. Era para ser amizade mesmo, tantos pontos em comum, todas aquelas risadas aleatórias, sem falar nas piadas infames. Era para ser amizade e talvez assim tivesse durado a vida toda. Não durou, fazer o que? Mesmo que ela tivesse aquela bunda deliciosa, aqueles olhos de fazer inveja a Capitu e toda atenção do mundo na hora de filosofar com ele, não era para ser.

Em dez anos construíram uma vida para se orgulhar. Formaram-se na faculdade, arranjaram bons empregos, juntaram as economias para comprar a casa e parcelaram os carros. As filhas eram garotas bacanas, curiosas que só. Do jeitinho que haviam sonhado. Sonhar, coisa mais besta. A gente sempre quebra a cara no final, por que já não se prepara para o baque?

Não se lembrava do momento exato em que tudo descera ladeira abaixo. Não podia explicar o caso com a colega de empresa, nem tentara na verdade. Quando ela descobriu não teve defesas, apenas abaixou a cabeça e desistiu para sempre. Já não parecia amor. Soava mais como um comodismo necessário. Era a comida quente depois do expediente, o corpo para se encostar, a conversa vazia a mesa. Era um alguém para quem voltar.

Assumia todas as suas falhas para com o relacionamento.  O ponto inicial da queda não fora a traição, em algum lugar o respeito foi perdido, mas tanto ele, quanto ela trabalharam para isso. Às vezes se sentia um grandíssimo covarde na busca de armamentos para quando ela voltasse a condena-lo. Dormiu sem perceber e quando acordou ela já havia começado o trabalho. Dava para ouvir o barulho vindo da sala, estava começando pelo cômodo com mais relíquias e sem ele. Uma tentativa covarde de sair na frente. Cada um com sua caixa, mãos atrás da orelha e já.

A trilogia de Senhor dos anéis versão estendida ficava com ela, era justo já que ela havia comprado. Agora a coleção de Lois e Clarke era dele antes do casamento. Decidiram entre agressões verbais a posse dos discos, DVDs, dos eletrônicos, quase saindo na mão para saber quem ficava com a poltrona. Os livros, cada um pegou o que era seu antes de juntarem as escovas e os que sobraram foram repartidos em um sistema de afinidades. E na última prateleira restara apenas um livro que ele jurava ser dele e ela jurava ser dela. ‘O amor nos tempos do cólera’ era decisão difícil. Livro preferido de dois a cada dois presentes naquela sala. Nenhum sistema poderia resolver. Comprar outro estava fora de questão, aquele exemplar carregava o valor sentimental dos bons anos e detinha um gosto de vingança, salpicado de prazer da vitória.

Em meio as ofensas, pegou o livro, sentou-se e leu. Saía do mundo quando abria aquelas páginas e isso a deixou louca da vida. A gritaria aumentou quando ousou esboçar um sorriso. Era impossível não sorrir diante do amor desesperado de Florentino Ariza. A quantidade de filhos da puta e outros palavrões proferidos ali não pode ser reproduzida nesse texto para evitar a censura, mas saibamos que isso o tirou do seu transe, não especifiquemos qual.

Convidou-a a sentar e ler com ele ao invés de gritar. Se de inicio ela se recusou achando que era uma zombaria ridícula, em três paginas da péssima leitura em voz alta dele, sentou-se e leu também. Passaram à tarde em Cartagena e a noite rememorando os amores perdidos na cama king size. Era amor de novo. Chovia para abrandar os ânimos e limpar os dez anos de solidão. Ficou claro que partir não era possível.

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