Era para ser sobre o ano novo

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Aos cinco anos de idade, de cabelo joãozinho e com ao menos uma janelinha, eu já fantasiava demais. A cena que define minha primeira infância envolve pessoas sentadas ao meu redor, ouvindo-me falar feito em um espetáculo, sobre um homem que nunca conheci. Descrevia o fulano nos detalhes que jurava bem realistas- barrigudo, cabelos encaracolados, um olho rosa e o outro azul, minhas cores preferidas então – e ganhava em troca gargalhadas que não combinavam com a seriedade do momento para mim.

Aos sete anos, não importa o quão surreal pareça, esqueci como se fazia para ler, mesmo que tenha aprendido essa arte dois anos antes, ao com dificuldade ler a palavra bife na frente da clássica doce professorinha de jardim, que nunca me esqueço, pois me prometia balas de coco e falava de anjos nas nuvens. Na primeira série foi tudo diferente, a professora não era doce e a classe era segregada em dois blocos, um lado dizia sou burro me exclua da sociedade e o outro, sou uma criança promissora, prometo não decepcionar. Ser do grupo dos excluídos deve ter me ensinado algo muito valioso e que no momento não consigo recordar, ao menos reaprendi a ler três meses depois.

Aos doze anos dei meu primeiro beijo, foi horrível. Sobre total pressão e fraca de personalidade, deixe-me convencer de que devia esquecer o garotinho magrelo que gostava de mim e que eu gostava de volta, por alguém mais experiente. Vou me arrepender para sempre, mesmo que o experiente tenha me trazido chocolates no dia seguinte. Posso ao menos dizer, que mesmo então, eu já não gostava de serviços incompletos, por isso tratei de dar o segundo beijo logo e em quem eu queria. Beijei o garoto magrelo em uma passarela ao entardecer, em seguida brigamos para sempre. Foi lindo.

Vive meu primeiro amor sobre turbulência familiar, eu tinha quatorze anos e ele vinte e três. Tudo ocorria no maior respeito no estacionamento do condomínio. Era amor quando ele me ouvia divagar sobre coisas loucas que queria fazer da vida, era amor quando ele chegava chapado e eu tão inocente não percebia. Era amor por hoje me fazer dar tanta risada ao relembrar das promessas que fiz em uma semana e que na outra, quando terminei do nada, já não valiam mais. Sim, sou uma vaca inconstante e talvez me orgulhe disso.

Acho que foi daí que passei a carregar o estigma de destruidora de corações, disso não me orgulho. Larguei bons rapazes e sem bons motivos. Desconsiderando o fato de ainda ser muito jovem, dias desses, um cara veio me cobrar depois de cinco anos um porquê que eu nunca tive para dar. Cruelmente crédito tudo a juventude, não sei se estou preparada para assumir que não sou um bom ser humano e mais ainda, que não sei lidar com os outros. Acabo de me lembrar que no ensino médio fui apelidada de frígida por não saber abraçar. Ainda hoje fico nervosa com demonstrações afetivas, na sexta-feira meu coração disparou quando meu chefe veio me abraçar e desejar boas festas, foi uma emoção tão ridícula que provavelmente vai virar caso e futuramente um conto, crônica, ou o que a inspiração permitir.

Aos dezessete anos, tinha um garoto na escola que me fazia rir muito e não se interessava por mim. Investi até conseguir o que queria e foi minha primeira demonstração de afeto público. Foi especial por três meses, tínhamos os mesmos desejos de só viver e não se comprometer, era um relacionamento aberto (pronúncia-se com bastante ênfase). Até que ele foi viajar e resolvi aproveitar os benefícios do aberto, conheci alguém e fiz a Summer. De amante risonha, tornei-me o carma de que alguém até hoje não pode se livrar. Ser feliz as vezes da culpa.

Em 2014 troquei de emprego três vezes, tive dois vai e volta com o meu namorado, sofri horrores na faculdade, conheci gente que admiro muito o trabalho, aliás, fiz amizades incríveis e que dão ótimos presentes de aniversário, tive uma fase ruim, bem depressiva e de autopiedade, completei vinte anos, decidi que era o momento para ser pseudo madura, entrei em crise quanto ao meu talento ou não talento para escrever e por fim, tentei botar no papel os aprendizados de tudo isso. Pelo que se pode ver, em algum ponto logo na primeira palavra, eu me perdi. Talvez não se trate do que aprendi em um único ano e sim do que levo de todos os vinte que já vivi e sei o quanto isso soa piegas e clichê, também sei que repito essas palavras demais em meus textos, é que se quero ser descolada, não posso assumir toda a emotividade que há em mim. Ops, tarde demais…

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