Alguém

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A fila do cinema era menor do que a que ela achou que encararia. Esperava muito mais gente, afinal, era a estréia de mais um filme de amor, daqueles com roteiros provavelmente escritos por alguém que nunca amou de verdade. São belos de ser ver, mas a realidade não se resume ao ciclo casal se conhece, apaixona-se, brigam e fazem as pazes para serem felizes pra sempre. A realidade é extensa e maleável, o que a torna mil vezes mais bela do que um roteiro de cinema.

Juliana nunca teve cachorro, gato, periquito ou peixe beta, nenhum ser a quem devesse atenção diária. Desde menina fora incentivada a se virar sozinha e isso lhe era mais que útil, era um saber qual realmente gostava de exercer. Não era boa amiga, filha, irmã ou funcionária, pelo simples fato de não ter apego. Trocava de emprego como quem troca de roupa. Amava a família, só não sabia ceder a eles um espaço realmente aproveitável em sua vida. Aos quinze anos fugiu de casa, ficando desaparecida por uma semana, sem culpa alguma pela aflição infligida, só voltou ao perceber que não era fácil viver de carona em carona com pouco dinheiro.

A efemeridade da vida era sua única certeza e para que a passagem por esse mundo realmente valesse a pena, devia transcorrer leve, então estava sempre descarregando o excesso de peso, sem medo de que, por um acaso, não sobrasse nada. Não há por que temer o vazio, nem a solidão, se levarmos em conta que mesmo com o maior dos esforços, no final somos apenas uma constituição solitária e impenetrável a todos.

Toda sua vida correu assim, até o dia em que topou um alguém. A paixão é volátil como se espera que seja, traiçoeira está e não está e é nessa que pega desprevenido aqueles desatentos. As feministas a excomungariam, mas sem deixar de lado sua independência e amor próprio, desatentamente assumiu para si, depois de cerca de um ano na fase “nos conhecendo”, que pela primeira vez em todos os seus vinte e cinco anos já vividos, havia encontrado a verdadeira sensação de liberdade e paz com sua própria alma.

Então, sem ter controle sobre, nasceu um casal. Mesmo depois de já se fazerem conhecidos intimamente, ainda estavam em plena paixão fumegante, sexo frequente e beijos dignos de desentupir pia. Digamos que ela não é lá muito pacata, gosta de saçaricar o mundo e bebe feito gente grande, talvez se torne alcoólatra no futuro. Apesar dos pesares, hoje ela não teme, mesmo que perca o controle sobre a cerveja de cada dia, ela sabe que terá quem segurar seus cabelos enquanto bota o estômago pra fora.

Ao contrário das previsões que diziam que um predador malvado seria sua perdição, ele era um cara doce, de paciência infinita e que frita um ovo como ninguém. Ele não a domina, não exerce nenhum poder telepático de controle, ele é só ele, fazendo promessas de estar ali para faze-la a mulher mais amada de todas, o que aos ouvidos dela se tornava poesia digna de antologia.

As vezes Juliana se esquece de amar, é estranho, mas não consegue simplesmente se adaptar a ter um alguém a quem acariciar, o que acaba por causar belas cenas de espanto e admiração por coisas cotidianas, como se pegar de mãos dadas na rua.

A sala já ia abrir quando ele chegou com a pipoca, atrasado pra variar, chegou lhe roubando o ar com um beijo. Na hora em que sentaram nas poltronas e ele segurou sua mão, foi inevitável abrir um sorriso constrangido, naquele momento ela era, com certeza, a mulher mais feliz do mundo.

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