Figurantes

ilusão
Imagem da internet

Anne era feliz, descrição breve e sincera. Em sua lápide não haveria de constar nada mais, nada menos. Não há como resumir melhor toda a completude de sua simplicidade. Moça área, sempre sonhando com fábulas românticas, queria se apaixonar, viver cenas de filmes, cheias de açúcar e caramelos. Loucamente, queria viver de vender algodão doce como o velhinho camarada, que fazia isso desde que ela era uma menina birrenta, esperneando para que a mãe lhe comprasse um doce. Era caseira, mas ironicamente, queria viajar o mundo. Desengonçada, sempre pensava em perder tardes andando de patins pelo Ibirapuera. Tímida, queria ser notada, vaidosamente adorada, no fundo, Anne só queria que ele – oh, ele! – a quisesse uma vez mais.

Norman era comum, popular em qualquer grupo que se enfiasse, rei das festas, tinha o hábito de viver os mais intensos amores por cerca de cinco minutos. Não se enquadraria no simples adjetivo bonito, com seus trejeitos debochados e o sorriso irônico, fazia-se predador de corações aptos a serem partidos. Mas, a realidade que só ele conhecia, era o fato deprimente de que todas só serviam para tapar o buraco que ela deixara. Era apenas mais um deprimido, fingindo saber o que fazia.
Em uma manhã fria de maio, daquelas onde se sabe que nada deve acontecer, Anne esbarrou em Norman e derrubou todos os livros no chão. Ela reconheceu de imediato a óbvia cena de uma clássica comédia romântica. Bem educado, tendo a chance de jogar, como de costume, o jogo do sedutor de coração partido, ajudou-a a recolher os pertences. Fez aquela cara de bom moço só sua composta por sorriso, e um olhar vazio, pedindo para ser preenchido. Anne não foi imune, sem saber como, quando ou por que, aceitou um convite para ir ao cinema no fim da tarde seguinte. Ao chegar em casa, pegou-se sem querer falando sozinha, com todo entusiasmo sobre ele. Conhecia-o de longe, a fama, a personificação de galã que o rondava. Assumiu pra si que o temia na mesma proporção que o admirava.

Por um momento Anne esqueceu completamente sua paixão platônica e oprimida. Só bem depois pensou nele. Pensou no que haviam vivido, como havia acabado e chorou. Eram tão parecidos, mesmos gostos, mesmos planos e ainda sim, era só platônico agora. Ele lhe dissera que ela não era capaz de viver uma relação real e em pouco tempo fugira pra longe, sem deixar fotos, cheiros, rastros, sendo preciso urgência em estar o mais longe dela possível. Pena Anne não conseguir ser assim, era feliz, mesmo com o apego inapagável.

Na tarde seguinte, vestiu-se a altura das expectativas, pronta a encontrar aquele que poderia, talvez, quem sabe, ser o seu príncipe encantado que a levaria da torre de ilusões de volta a realidade. O importante a se ressaltar, é que em matéria de reinos e príncipes, Norman havia há tempos sido reprovado por incongruência de perfil, mas Anne ignorava isso, desejava ser salva. Enquanto ela tomava seu banho, a cantar mil e muitas baladas tolas de amor; em um ponto central da cidade, Norman bebia e ria com seu bando de amigos, sem dar a mínima importância para o encontro a mais que teria em poucas horas. Era só autodestruição fantasiada de sexo.

Na hora marcada, o príncipe Norman – cá entre nós, a cópia mal xerocada, desbotante da realeza – chegou à casa de Anne. Ela não o deixou esperar um só minuto, assim como não esperaram muito para se envolverem. Só se deram conta quando já haviam trocado beijos e carícias por tempo demais para chamar de encontro. Ela era doce e instigante a ele. Ele era cru e sincero a ela. Na visão dos amigos dele, era só mais uma rodada, apenas estendida pelo prazer final. Na visão dos dela, era a tão sonhada superação do passado. Ambos sabiam lidar com um exemplar destroçado sentimentalmente, ainda sim, sempre parecia faltar algo.

Tinham química no corpo a corpo, riam juntos, suas mãos se encaixavam perfeitamente e era notório a beleza que possuíam como casal, ainda sim, Anne se via frequentemente lembrando de como havia sido com o outro, apesar de já não saber se suas lembranças tinham alguma propriedade. Norman tentava com intensidade, sentiu que ela era boa demais para servir de remendo, quando na primeira noite a chamou pelo nome da outra, falha que jamais lhe ocorrera, e ela não ignorara, nem o repreendera, ao invés disso, abraçou-o tão forte quanto pode. Ali ele entendeu que partilhavam do mesmo amargor e quis ficar mais.

Quando ele finalmente se abrira a ela, contando seus grandes podres, revivendo sua história, Anne viu a admiração que tinha pela imagem ilusória do cara forte se quebrar, viu o respeito partir e sentiu pena dele, nada mais. Sabia que era um sofredor desde o inicio, mas sentia como se fosse algo puxado mais para um romântico charmoso, ver o quanto ele refletia a fraqueza foi um baque.

Um dia, ela se viu frente a frente com o passado, tendo aquele que ainda morava em seus sonhos no mesmo ambiente, conversando com ela como nos velhos tempos. Encheu-se de esperanças e na mesma noite terminou tudo com Norman, preparando-se para estar pronta para receber seu príncipe quando ele voltasse. Trocou os pés no chão pela incerteza de com ele estar novamente. É bom saber que ele nunca voltou.

Anne tomou de lembranças vãs seu passado aterrador e nele mergulhou para nunca mais. Ninguém mais deveria observá-la. Tornou-se pura e simplesmente restos, mas não podemos esquecer de ressaltar que Anne era feliz, independente se essa felicidade era real ou não. Norman fora como um corte no dedo que a gente faz e não percebe até encarar a ferida, ela viu, chupou o sangue e ignorou a dor. A pura verdade dita, jogada de forma acusatória na sua fronte, não bastou para que se libertasse de todas as fantasias desbotadas. Para Anne era como se Norman sim, fosse um incalculável ser humano de verdade, sofrendo as claras, agindo, se arrependendo, amando sem pensar em detalhes triviais e ridículos e o principal, arriscando. Numa cena teatral, ela agira como mera figurante.

Norman continuou vivendo de atrasos e ilusões, achando que com tantas e tantas mulheres fúteis, frívolas, poderia esquecê-la. Chegou a pensar em Anne também. Na forte atração que ela desembocou nele, mas que não passou de alguns amassos e gemidos bons. Amor deveras só por ela. Já que não a possuía, treinaria com as outras a arte de ludibriar, engana-se se seu pensamento se direcionar as pobres moças, ludibriava a si mesmo. O desejo as vezes move o mundo, descola montanhas e rios, as vezes, neste caso, é uma colocação superficial, para muitos é tudo e com ele se vive.

Escrito em parceria com Priscilla Millan

 

 

 

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