Ei, garçom!

whisky on a wooden table

Seu garçom, senta aqui, faz favor de me fazer companhia! O bar já vai fechar mesmo, senta que eu te pago uma bebida, senta que eu quero desabafar. Entendo, você não pode perder tempo com uma bêbada… então só escuta, escuta enquanto despejo nessa mesa toda merda que tô sentindo aqui dentro.

Sabe, o mundo gira, gira, gira e eu sempre me sinto no mesmo lugar. Não ri, eu só queria não querer tanto. Admiro as pessoas que sabem habitar a simplicidade. Você parece ser assim, aqui sorrindo dia-a-dia para pessoas que cagam para saber até mesmo o seu nome. Não é o meu caso, sou daquelas batatinhas que não espalha a rama em qualquer chão, tem que ser firme para tocar meus pés, ao mesmo que leve para que eu possa flutuar indefinidamente pegando carona em cada nuvem que passar.

Deu no jornal que a manhã de hoje foi a mais fria do ano e mesmo assim acordei suando as bicas. Minha visão estava embaçada e não tinha forças nem para me mexer, Ana dormindo do meu lado não acordou nem quando o despertador, que esqueci de desligar, tocou, ela tem sono bem pesado, mas mesmo inconsciente me envolveu em um abraço de quem se aconchega, sendo sustento ao mesmo que a perturbação. Eu a amo, amo tanto que nem sei explicar, só sinto que eu era muito mais feliz antes e não sabia.

Isso, senta aqui que a gente vai se dar bem! Olha, já se passaram mais de três anos desde o dia em que acordei desesperada de um pesadelo que não me deixa mais em paz, nessa madrugada sonhei de novo. Com o que? Bom, ele começa comigo trancafiada em um quarto com janelas e portas a perder as contas e todo o tempo eu sei que apenas em uma delas há saída, mas como descobrir qual porta abrir? Eu só tenho três chances, três chaves que se degradavam ao não abrir a porta certa, ambas contém uma inscrição, três palavras: nascer, crescer e morrer. Ficou arrepiado, é? Eu fiquei também, mas só na primeira vez.

Calma que não acabei. Eu tento abrir as portas e perco a primeira chave em uma tentativa ansiosa, tão rápido que quase não vejo quando se desintegra. Depois gasto um tempo considerável na segunda tentativa, sinto a insegurança até acordada. Mesmo tendo a certeza de que não vou encontrar a saída dali assim tão fácil, realmente quebro a cabeça antes de arriscar de novo e quando encontro a porta amarela, é instintivo seguir até a fechadura. Erro e a decepção coloca quaisquer esperanças ao chão. Depois arrisco, fecho os olhos e abro a primeira porta que fui capaz de tatear, parece já não ser importante acertar. Acredite se quiser, é a certa. Uma luz cega meus olhos e acordo. A gente sempre acorda na melhor parte.

Quando despertei essa manhã, tratei de fugir dos braços da Ana, tão frágeis, tão fortes, para me afundar em um choro descontrolado nos ladrilhos do banheiro. O que dizer? Uma adulta madura, bem sucedida, aos trinta e dois anos de uma vida bem vivida, casada há sete com uma mulher de qualidades imensuráveis, sem filhos e sem pretensões de tê-los, com álbuns de fotografias recheados de bons momentos, encontrava-se chorando feito um bebê por um pesadelo que nem era tão amedrontador assim. Caralho! Você me acha patética, não é?

Chorei até as lágrimas secarem, os olhos arderem, o nariz inchar e a minha mulher acordar batendo na porta do banheiro. Não queria que ela notasse meu estado, faria perguntas e mais perguntas que não saberia responder. Corri covardemente para o banho. Ela entrou, disse seu habitual bom dia e silêncio, de dentro do jato de água quente ouvi a respiração sonolenta dela, a tampa da privada sendo aberta, o chiado do xixi, a descarga sendo dada e esfriando levemente o chuveiro, barulho da tampa sendo fechada e nada mais. Acho que entrei em um transe ai, dentro do eterno silêncio.

Estava tão concentrada que não ouvi Ana entrar no chuveiro e só a notei quando suas carícias de quem pede um olhar me trouxeram de volta. Sabe, seu garçom.. como é seu nome mesmo? Felipe? Então, ela só queria ser amada e contemplada, eu não sabia o que queria, mas a atendi. Depois do amor, ela pegou o notebook e sumiu, eu com o controle da TV, sem mais olhares, sem muitas palavras. Até a convidei para jantar. Estava concentrada e demorou alguns segundos para responder, ou por pensar sobre ou por não achar necessário uma resposta imediata. Não queria sair da cama por nada nesse mundo.

O nó na garganta não me deixa respirar. Eu não estava a fim de passar o dia dentro do quarto, mesmo assim suportei as quatro paredes até ela cochilar e aqui estou desde então, comecei na coca e parei no vinho, sei lá quantas garrafas já bebi. Ai, como queria ser outra, não me contento com a incompletude do que sou. Esta, este corpo que comporta minhas curvas, esta mente reprimida, estas ideias. Vivo com as marcas de vivencias que soam como se jamais houvessem me pertencido. Faço-me prazer ou desengano? Qual a solução para tanto querer? Eu não sei a resposta e também não espero que você saiba, é difícil calar os próprios questionamentos, o que dirá os dos outros. Por hora me subtraiu a estas taças de vinho. O que eu faço, em Felipe?

– Pedi um whisky antes que o bar feche!

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