Outra história

sentimento

Fiquei parada ali por horas, olhando o caminho qual ele havia seguido para nunca mais voltar. Nos conhecemos em um tempo onde tudo era simples, estávamos próximos um do outro da maneira mais ampla. Eu era dele e ele era meu. Mas já aprendi que enredos sem conflitos não fazem histórias.

Eu era a amiga da irmã que escrevia sobre coisas que jamais havia vivido. Ele o irmã da amiga, cheio de vida e piadas que ninguém entendia. Foi preciso apenas a apresentação e mais alguns poucos encontros sociais e pronto, estávamos submersos até o pescoço. Rir nunca fora um ato tão involuntário e patético as vistas do resto do mundo. Eu andando sozinha em horário de pico, de fones, seríssima, até pensar no toque dos dedos dele acariciando meu rosto, pronto, estava feita a bela cena de uma garota louca, que não conseguia conter os lábios, sorrindo sem parar aos que passavam, tudo isso por que eu era feliz. Acreditava mesmo que nada podia ser mais intenso.

Foi em uma bela tarde, depois da primeira briga, que assumimos que só sentir não bastava, juramos nos amar, respeitar e ficar apenas enquanto houvesse por quê. Era o inicio, onde razão e coração ainda sabiam se entender. Entre o calor de promessas bonitas ousamos despir o corpo de ilusões mundanas, como dizem, amor não enche barriga, amor não impede que a casa caia sobre dois corpos em colapso, era honrado sermos francos, em nome de nossas individualidades.

Adorava andar de mãos dadas só por andar, as vezes me perdia viajando em histórias românticas que criava para os outros pedestres, espelhando no mundo a plenitude do que sentia, tudo isso enquanto ele falava sem parar sobre inúmeras coisas que se quer me lembro. Bebíamos do mesmo copo, dançávamos e a noite só acabava depois de nos entrelaçarmos parte a parte no colchão velho do apartamento que ele dividia com mais dois amigos.

Mas, crescer nunca é fácil, seja você quem for, tenha crescer o significado que tiver. Eu tinha um caminho traçado antes mesmo dele aparecer, a faculdade estava quase no fim e era aí que o vão se alargava entre nós. Todo um continente de coisas opostas existia, ele iria para a Europa, eu para America e o verão era curto demais para nos manter aquecidos.

A vida foi nos levando, ele surgia em noites de quarta, gritava comigo, ia embora e aqui ficavam apenas saudades das tardes de sol líricas. Nossos diálogos corriam entre caixas de mensagens, enquanto eu estava em uma reunião, ele em um congresso.

Meses sem nos ver, ela já havia entrado na vida dele dividindo o mesmo teto, mas ainda havia um nós, mesmo sem toques, sem presenças. Então o encontro ocorreu, nos esbarramos em uma livraria um ano depois da última quarta, abracei-o tentando estancar a sensação que me corroía, acho que ele tentou algo parecido. Almoçamos juntos, e agora eu também tinha outra pessoa, beijando, abraçando, dividindo a cama e o café.

Corri para debaixo de seu teto em uma semana, outra vez estávamos juntos, rindo, entrelaçando os dedos, magoando todos os outros envolvidos, já não havia razão se tratando de calar o desespero. Só não entendi por que quando nos abraçamos no banho, senti falta do passado, como se esse recomeço não fosse o bastante.

Não era da imensidão daquele olhar quando mirávamos um ao outro, que tudo isso se tratava? Então por que quando eu acordava pela manhã era só a conversa entre nossos silêncios que podia ouvir? Outra vez a vida foi acontecendo, reuniões, congressos, carreiras, detalhes que ocultávamos, ciúmes, um emaranhado de coisas que se amontoavam na gigante bola de neve, fazendo um strike daquela história. Corri de volta para minha vida tão rápido quanto entrei, recomeçando outra vez, com outra pessoa e era sempre nele que eu ainda pensava antes de dormir.

Juro que até ontem meus pulmões se inflavam com a fumaça de cigarros que nem fumava. Até ontem eu podia dançar sem parar uma noite toda sem sentir o amanhecer chegar. Juro que até ontem ainda tinha vinte anos e acreditava que nada podia ser mais intenso, só que o tempo passou sem eu ver.

Agora pouco esbarrei com ele outra vez, quase nem o reconheci, nos abraçamos estacando toda a saudade e ânsia de termos mais daquilo, mais de nós, sabemos que não é possível.

Quando as pontas dos dedos dele acariciaram meu rosto e me encolhi naquela mão, não houveram palavras, nos perdoamos, então ele foi embora, rumo ao enfim adeus. Não foi menos dolorido do que da primeira vez, a diferenças é que agora eu sei muito mais do que sabia antes sobre o tempo.

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