Enquanto ela dorme

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Dormia serena. Tocou seu rosto com dedos temerosos, sentia-se impuro, acariciar a beleza daquela mulher, tão delicada em formosura, era obra rara na sua vida de misérias. Agradecia todas as noites antes de dormir, mesmo não tendo crença alguma, agradecia ao destino pela honra de viver sua realidade. Agora era rei dos mais deliciosos momentos, rindo-se como quem é feliz. Agora era o faz de conta mais lindo. Dormia sorrindo, em sonhos límpidos se perdia, até acordar chorando. Nunca pudera sonhar com tanto.

O que será que diziam? Era a dúvida rondando suas alegrias, esforçava-se para ignorar. Quando passava, sentia olhares, cochichos, apertava as unhas contra a palma da mão até o sangue sair. Ela era boa demais pra ele, não podia ser verdade. Depois de provar o paraíso, não poderia aceitar submisso uma volta a terra, mas ela era boa demais. Um dia haveria de acabar e os dias seriam todos cinza, sem açúcar e afeto. Seria um homem a mais em sete bilhões, em busca de se sustentar.

Odiava todos os que antes passaram por aqueles lençóis e tiveram seus corpos marcados pelo cheiro de lavanda. Odiava aqueles que tiveram a chance de pousar a cabeça sobre os seios da mulher que agora era a sua, será que também adormeceram sorrindo? Toda vez em que a via vestindo a camisola de renda, mordia a língua supondo quem antes dele mirara as formas dela pelo tecido fino. Era bela de um jeito desvendável, a cada camada um tanto a mais se acrescenta e quem a conhece bem cai de amores irreparáveis. Quem mais chegara tão longe? Um alguém podia estar vagando mundo a fora, chorando saudades, roía as unhas até a carne só de supor.

Era como um menino vadio, pobre amador na arte de ser feliz, lambuzado até o nariz, sem saber lidar com o não ter do que reclamar. Buscava a saída de emergência, sabia que uma hora ela recorreria a uma fuga à francesa, melhor se prevenir.

Prometera para si mesmo ainda chegar diferente do trabalho, devoraria-a em amor cálido, para fixar seu cheiro, seu gosto, para marca-la como ferro em brasa. Haveria de se fazer presente, pois era bela demais pra ficar. Desejava velar seu sono, seus passos, sua vida, mesmo corando por tais pensamentos. Sentia-se egoísta, mas se permitia, pois merecia. Ela era feito água para sua sede pétrea do deserto, tinha de aceitar, sem fantasia.

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