Norma

ZENIT-3

Atormentado pela solidão, era assim que estranhamente se sentia completo. Bebendo os demônios antes de se permitir possuir. Consumindo a vida que um dia teve. Tragando o que almejou ser em cada novo cigarro aceso. Era inevitável, sua cara já colava ao chão do fundo do poço e esse chão tinha gosto bom.

Não eram nem mesmo sete da manhã, mas seu estômago já reportava a forte azia, prêmio de consolação por toda a bebida consumida nas horas anteriores. Quando tinha cinco anos adorava deitar no tapete de casa, com o rádio ligado e dormir ali mesmo, isso até sua mãe o carregar para a cama, onde era escuro e silencioso. Desde que passara a morar sozinho, abdicara de ter um quarto, mesmo com o comodo vago, dormia na sala, no belo sofá cama que tinha mais mancha de bebida do que anos de existência.

Era sete de julho, dia de porra nenhuma, o que não o impedira de acordar com o galo cantando, decidido a comemorar até cair de bêbado de novo. Onde estava Norma ontem a noite? Onde está Norma que não volta? Com quem esteve? Com quem está Norma?
É um homem sozinho e viciado. Bebe mais do que aguenta, passeia pela ilicitude, nada se compara ao vicio em sofrer, a abstinência enlouquece. Por que o deixou? Por quem foi?É um homem sozinho, viciado e obcecado, tem consciência disso. Sabe que mataria por ela. Sabe que a mataria se houvessem provas. Vai mata-la, não quer ir sozinho.

Quando o galo cantou e o primeiro raio de luz passou pela janela, abrir os olhos e se achar deitado sobre o próprio vômito foi melhor do que acordar no vazio da cama de menino, pelo menos a música não havia parado.

As onze o telefone tocou, desesperado atendeu, era ela.

“Alô”

“Vagabunda”

“Vai se foder. Vou mandar pegar as minhas coisas ai… Liguei pra sua família, alguém tem que te internar”

“Vaca… Volta… Você faz falta”

Silêncio. Coração a mil. Cabeça explodindo. Ela desligou sem esperar para ouvir que ele a amava.

Cocaine Blues tocava sem parar desde que conseguira se por de pé. Cantava a plenos pulmões e bebia, para esquecer e lembrar, tudo ao mesmo tempo. Só a dor é real, só os cortes feitos pelos cacos de vidro espalhados pelo apartamento.

Enquanto os gritos e ofensas terminavam em promessas e votos de para sempre, pareceu mentira. Aquele dia em que a viu sorrir olhando para o lado oposto ao seu foi o inicio do fim. A partir dali brigas envolvendo sorrisos se fizeram todos os dias. Pareceu real. Destruir o que tocava era tentador. Só a dor afligia ao ponto de dar sensibilidade a quem não sentia nada há muito tempo.

O preço de viver era não a ter, não queria pagar. Norma havia de voltar e juntos poderiam se destruir até a bebida acabar, assim o fel teria o mesmo gosto para os dois. Norma, Norma, Norma, os vizinhos já não suportam mais ouvir os gritos. Ela não atende. Vai buscá-la, mas só quando seu corpo conseguir se sustentar, só quando não estiver espumando, só depois de morrer. Só depois que acharem seu corpo. Só depois da decomposição. Ai, quem sabe, tenha forças para trazer Norma pra si.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s